Kung Fu é uma Arte Marcial?

No ocidente, o termo Kung Fu [功夫, gōng fu] se tornou muito popular na segunda metade do século XX para se referir às artes marciais chinesas. Sua tradução aproximada é trabalho árduo ou tempo de experiência e dedicação, ou ainda habilidade e mérito adquiridos ao longo de muito tempo de esforço e dedicação.

O mestre Lee Chung Deh costuma dizer que na visão dele Kung Fu é a ARTE DE VIVER. Em nossa escola, adotamos essa perspectiva, entendendo que a arte de viver aponta para a busca pela excelência do ser em cada momento de nossas vidas, dentro e fora da escola. No entanto, essa arte envolve um aspecto fundamental: LUTAR

Lutar não é o mesmo que brigar. Uma briga é um encontro violento, um conflito de interesses e egos, onde o resultado esperado é sempre a destruição física e/ou emocional de ambos os lados, gerando consequências negativas para todos ao redor. Por outro lado, uma luta é um processo construtivo, inerente à condição humana, e necessário ao aprendizado do homem, promovendo o crescimento ao colocar o indivíduo frente a frente com suas próprias limitações e lhe incentivando a superá-las.

Todos passamos por muitas lutas ao longo de nossas vidas. Você pode lutar contra uma doença grave, que o aflige ou a algum ente querido, lutar por condições melhores para sua família, enfrentar desafios no trabalho, batalhar por uma promoção ou ainda para ser aprovado em um exame. Pode ser que hoje mesmo você esteja lutando contra dificuldades financeiras, traumas e conflitos psicológicos, ou mesmo por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa para seus filhos. Em nosso próprio nascimento passamos pelo parto, uma luta incrível que nos fortalece e prepara para o que virá. Certamente você já enfrentou algumas lutas em sua vida, mas pode ter certeza de que muitas outras ainda estão por vir.

Deste modo, um praticante de Kung Fu irá aprender a arte de lutar, que é de fato a arte de viver. É uma jornada de superação e autoconhecimento que visa torná-lo um lutador preparado para enfrentar qualquer batalha que surgir em seu caminho. Ser um lutador é sinônimo de ser alguém que não desiste nunca, ou seja, uma pessoa determinada a vencer suas batalhas, sejam elas quais forem. Essa determinação ou força de vontade é o principal elemento para vencer no âmbito profissional, familiar, acadêmico ou em qualquer outra esfera de sua vida. No entanto, ainda que a vontade seja o principal elemento, muitas outras virtudes são necessárias para complementar essa formação, dentre as quais se destacam a humildade, o respeito, a perseverança, a resistência, a retidão, a confiança, a paciência, a lealdade e a coragem. Essas virtudes formam o Wude, nosso código de ética marcial.

“O Kung Fu é uma arte marcial chinesa de filosofia, habilidade, confiança e determinação. Seu objetivo maior é a busca pela integração do homem ao meio ambiente através da harmonia com a natureza. O praticante deve buscar o autoconhecimento, a melhoria na saúde e, em caso de necessidade, a defesa pessoal”.

Mestre Lauro Telles, 2005.

Sobre o Treinamento

Dizemos que um bom Kung Fu precisa ser construído de forma equilibrada sobre quatro pilares fundamentais:

• Técnica Marcial | Wushu
• Condicionamento Físico e Mental | Kung Li
• Cultivo da Energia e Saúde | Chi Kung
• Ética e Filosofia | Wude

técnica marcial diz respeito ao conhecimento propriamente dito. Inclui os movimentos, formas (katis), fundamentos, bases, posturas, táticas, estratégias de combate e todo o conhecimento técnico passado nas aulas. É o “saber fazer”.

condicionamento físico e mental diz respeito à capacidade de executar as técnicas. Aqui estão incluídos força muscular, alongamento, flexibilidade, agilidade, resistência física, vigor, capacidade respiratória, além de força de vontade, perseverança, paciência, entre tantos outros elementos físicos e mentais que permitem que a técnica seja executada de forma eficiente. É o “conseguir fazer”.

cultivo da energia e saúde diz respeito a boa alimentação, respiração adequada, descanso adequado e principalmente ao desenvolvimento interno, especialmente através do Chi Kung. É o “ter o que precisa para fazer”.

Por fim, ética e filosofia dizem respeito aos valores e propósitos da prática, à profundidade da arte. São os princípios que norteiam e orientam o treinamento. É o “por que fazer”.

Assim, ao reunir esses quatro pilares no seu treinamento o praticante poderá obter os melhores resultados de sua prática, reunindo conhecimento, condições e propósito. Assim seu Kung Fu será sólido e consistente, trazendo benefícios para toda a sua vida.

Estilos de Kung Fu

A arte marcial teve origem há milhares de anos na China. Monumentos históricos e achados arqueológicos apontam a existência das artes marciais chinesas há mais de 3.000 anos, sendo o seu surgimento cercado por mitos e lendas. Ao longo deste período, a arte cresceu e evoluiu de forma orgânica, se diversificando e adaptando a cada realidade local e a cada contexto histórico da imensa China. Existem centenas de estilos de Kung Fu já catalogados, muito diferentes entre si e cada qual com suas diversas linhagens. Os estilos diferem em movimentos, posturas e técnicas, mas especialmente no entendimento de movimentação, estratégias de combate, direcionamento de energia e fundamentos de prática.

Em nossa escola, os principais estilos de Kung Fu praticados são o Shaolin do Norte e o Tai Chi Chuan, especialmente na linhagem do Grão-mestre Chan Kowk Wai. O próprio grão-mestre, a exemplo dos mestres que o antecederam, também aprendeu e propagou técnicas de muitos outros estilos que conheceu e entendeu serem relevantes ao longo de sua trajetória. Da mesma forma, ensinamos diversos outros estilos em nossa escola, que representam a dedicação e o compromisso de nossos professores em manterem o Kung Fu cada vez maior, mais forte e mais profundo.

Os estilos que ensinamos (completa ou parcialmente) são:

O Shaolin do Norte [北少林, běishàolín] é um dos estilos mais antigos de Kung Fu e há diversos indícios de que ele foi criado de fato a partir de técnicas desenvolvidas dentro do Mosteiro Budista de Shaolin, na província chinesa de Henan. Também conhecido como Shaolin das Dez Rotinas, o estilo é composto não somente pelas 10 rotinas de treinamento de mãos livres que o nome indica, mas também por dezenas de rotinas com armas de todos os tipos, além de outras formas especiais. As técnicas empregadas no estilo abrangem uma grande variedade de golpes dos estilos originais de Shaolin, empregando golpes com braços e pernas (muitas vezes ambos simultaneamente), saltos, rasteiras, projeções, torções e muitos outros movimentos.

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O Tai Chi Chuan [太極拳, tàijíquán] é bastante conhecido como prática suave e eficiente para a melhoria da saúde, mas poucos sabem que o Tai Chi é também uma arte marcial completa, pois além do aspecto terapêutico desenvolve ainda técnicas de defesa pessoal. Muitos mestres reconhecem o Tai Chi como poesia em movimento ou ainda meditação em movimento. Esta arte se baseia nos princípios taoístas de equilíbrio, trazendo sempre presentes conceitos como a dualidade Yin e Yang, os Cinco Elementos, o Ba Gua (Oito Trigramas), entre outros. Em nossa escola praticamos os estilos Yang e Chen tradicionais, o que significa que os praticantes aprendem uma arte marcial completa, que inclui defesa pessoal, desenvolvimento da energia interna, aumento da concentração e da capacidade de memorização, além da grande melhoria na saúde.

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O estilo Choy Li Fat [蔡李佛, càilǐfó] foi criado pelo mestre Chan Heung na província de Cantão, no sul da China, no século XIX. Este estilo combina técnicas de vários sistemas de Kung Fu do norte e do sul da China, sendo muito conhecido pela sua eficiência em combate. As principais características do estilo são os poderosos movimentos de braços combinados com giros de quadril para gerar potência e circularidade, assim como as bases baixas aliadas a passos ágeis e velozes. Apesar de ser muitas vezes conhecido como “estilo do tigre”, os movimentos do Choy Li Fat são inspirados em cinco animais: Dragão [龍, lóng], Serpente [蛇, shé], Tigre [虎, hǔ], Leopardo [豹, bào] e Garça [鶴, hè]. Em nossa escola ensinamos formas de mãos livres e armas da linhagem Hung Sing de Futsan [佛山雄勝蔡李佛, fóshān xióngshèng càilǐfó].

O estilo Louva-a-deus é também chamado Tong Long [螳螂拳, tánglángquán] e foi criado em torno de 1640 pelo mestre Wang Lang [王朗, Wáng Lǎng]. Conta-se que durante uma meditação, o mestre observou uma luta entre um inseto louva-a-deus e uma cigarra. A partir dos movimentos ferozes do louva-a-deus, Wang Lang criou um novo estilo marcial e o batizou em sua homenagem. As técnicas deste estilo abrangem movimentos rápidos, curtos e precisos, onde o praticante procura aproximar o adversário e penetrar em sua guarda. Utilizam-se técnicas de socos, cotoveladas, chaves e torções, além de chutes curtos que geralmente têm a intenção de projetar o adversário ao solo. A linhagem que praticamos em nossa escola é a Louva-a-deus Sete Estrelas [七星螳螂拳, qīxīng tángláng quán], que é considerado um estilo de louva-a-deus do norte e uma das linhagens mais difundidas e praticadas na atualidade.

Considerado um dos principais estilos internos de Kung Fu, o Xing Yi Quan [形意拳, xíng yì quán] também é conhecido como Hsing-i e foi criado por volta de 1600. Seu nome pode ser traduzido como “Forma e Intenção” e sua origem é atribuída a diferentes mestres, inclusive a personagens lendários em algumas versões. A movimentação neste estilo é basicamente linear. As mãos, os pés e o tronco se movimentam juntos em harmonia, e a cabeça, as mãos e os pés permanecem sempre alinhados no eixo central. É colocada muita ênfase na geração e mobilização de energia interna (Chi) nos movimentos, com liberação explosiva ao final. As estratégias de combate são bastante agressivas, movimentando-se para dentro do espaço do oponente e desferindo golpes fulminantes e decisivos para o combate.

Famoso pela circularidade de seus movimentos, o Bagua Zhang [八卦掌, bāguà zhǎng] também é conhecido como Pakua Chang e sua tradução é Palma dos Oito Trigramas, em referência aos famosos Oito Trigramas [八卦, bāguà] do I Ching. Foi desenvolvido pelo mestre Dong Haichuan [董海川, Dǒng Hǎichuān] no início do século XIX. Um dos mais famosos praticantes de Pakua do século XX foi Sun Lutang (孫祿堂), também criador do estilo Sun de Tai Chi Chuan, e que aprendeu a arte do Pakua com Cheng Tinghua (discípulo direto de Dong Haichuan). Conta-se que a especialidade de Cheng Tinghua era o uso das posturas e circularidade dos movimentos para agarrar, derrubar e imobilizar os adversários, uma vez que antes de aprender a arte do Pakua ele já era uma proeminente lutador de Shuai Jiao. No Pakua predominam os movimentos com as palmas das mãos, especialmente na postura chamada Garra de Dragão, por isso muitas vezes esse estilo é conhecido como Estilo do Dragão. Além disso, são usados ataques de mão aberta, fechada, torções, rasteiras e projeções, sempre mantendo como característica a circularidade em todos os momentos. A prática de andar em círculos, voltando-se para o centro e efetuando súbitas mudanças de direção, também é característica marcante deste estilo. Há oito tipos de posição de palmas e oito tipos de movimentações com os pés, associadas a cada um dos oito trigramas. A combinação das oito palmas com os oito passos correspondem aos 64 hexagramas do I Ching.

O Luohan Men [罗汉門, luóhànquán] é um dos mais antigos estilos criados no templo de Shaolin, também conhecido como As 18 Palmas de Luohan ou ainda 18 Palmas de Buda. O nome Luohan é o equivalente em chinês para o termo sânscrito Arhat, que representa aqueles que atingiram a iluminação no budismo. Nossa linhagem de Luohan vem do mestre Ma Kin Fung, que ensinou para o grão-mestre Chan Kowk Wai. Neste estilo, os movimentos de ataque e defesa são rápidos e precisos, exigindo muita flexibilidade e força para sua execução.

Seu nome pode ser traduzido como Seis Uniões ou Seis Harmonias [六合拳門, liùhéquánmén]. Esse conceito se aplica à harmonia necessária entre as seis articulações: punho, cotovelo, ombro, tornozelo, joelho e quadril. Neste estilo utilizam-se movimentos fortes, com pisões, alternando chutes e socos. A dinâmica de energia deste estilo faz uma ponte entre Shaolin e Xing Yi, o que o torna um excelente complemento para as linhagens que treinam ambos estilos. Possui muitos movimentos espiralados e métodos de movimentação coordenando todas as articulações do corpo em harmonia. Um dos maiores nomes deste estilo foi o mestre Wan Lai Sheng.

Existem muitas versões do Tantui, praticadas em diferentes escolas e linhagens. É um estilo que enfatiza as técnicas fundamentais do Kung Fu, fortalecendo bases, ajustando os alinhamentos do corpo e desenvolvendo equilíbrio, força e flexibilidade. Possui um excelente arsenal de técnicas de quedas e projeções, também conhecidas como Shuai Jiao, sendo que a movimentação linear e a repetição dos movimentos são características marcantes deste estilo.

O estilo Garra de Águia [鷹爪派, yīngzhǎopài] como conhecemos hoje na verdade é a fusão do estilo acrobático conhecido como Fanzi com as técnicas de agarrar, torcer e imobilizar conhecidas como Chin’na. Este estilo foi baseado na agilidade, força e precisão da águia, fazendo muito uso da técnica que dá o nome ao estilo, especialmente para aplicação de imobilizações, chaves e torções. De fato, as técnicas de Chin’na são consideradas a especialidade deste estilo. Também utiliza muitos chutes e movimentação ágil de pernas. A velocidade, leveza e agilidade também são consideradas diferenciais deste estilo, especialmente pela combinação de golpes encadeados.

Cha Quan [查拳, zhāquán] é um estilo do norte da China, caracterizado por movimentos amplos e graciosos. O estilo é associado à etnia Hui e teve forte influência na formação do estilo Shaolin do Norte. Também foi um dos estilos que mais influenciou o Wushu Padronizado, tanto em formas de mãos livres (Changquan) quanto em armas.

Estilo do sul da China que tem como principais características a movimentação de curta distância e a economia de movimentos. Estabelece como prioridade o controle da linha central do combate, criando um triângulo de ação e tomando para si este espaço. É um estilo simples, com poucas formas (katis) e, portanto, muito eficiente para quem busca o desenvolvimento de curto prazo.

O conjunto das práticas marciais associadas aos templos das montanhas Wudang (武當山) é geralmente chamado de Wudang Quan [武當拳, wǔdāngquán]. Há diversas discussões acerca da comprovação histórica das origens das artes marciais de Wudang estarem realmente relacionadas aos templos taoistas nas famosas montanhas, porém muitas técnicas ficaram particularmente famosas levando esse nome. Em nossa escola, ensinamos a renomada Espada Wudang do famoso general espadachim Li Jinglin (também conhecido como Li Kim Lam), tanto na forma simples quanto na combinada de duas pessoas, conhecida como Sancai Jian.

Na segunda metade do século XX, durante a República Popular da China, o governo comunista chinês desenvolveu o Wushu padronizado, ou Wushu moderno, com o objetivo de padronizar a arte marcial chinesa como uma prática desportiva, mantendo-a como um elemento de identidade nacional. Mestres da época adaptaram técnicas de seus estilos tradicionais para um novo estilo moderno, visando não mais a defesa pessoal, mas sim o desenvolvimento atlético. O Wushu Moderno como esporte de competição se divide em duas modalidades principais: Taolu [套路, tàolù], que envolve as competições de formas ou rotinas, e Sanda [散打, sàndǎ], que envolve as competições de combate.